terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

COMO FUNCIONA E PARA QUE SERVE O STAVIGILE

Sabemos que atualmente produtividade significa lucratividade, e fato. No entanto, "O homem não irá esperar passivamente por milhões de anos até que a evolução lhe ofereça um cérebro melhor". A frase foi dita por Corneliu E. Giurgea, o criador de uma droga chamada Piracetam. Trata-se de um remédio que chegou às prateleiras europeias no início da década de 70. Nos testes clínicos, os voluntários que haviam tomado o Piracetam notaram que "podiam pensar com mais clareza" após a utilização da droga. 

E, desde então, o Piracetam tem sido utilizado para tratar uma série de problemas cognitivos. A bula brasileira, por exemplo indica-o para os que sofrem de "perda de memória", "distúrbios de atenção" e "dificuldades de aprendizado". Acontece que muitos indivíduos, mesmo não apresentando problemas cognitivos, consomem o Piracetam em busca dos benefícios propostos por essa droga. Eles não querem compensar algum déficit mas sim, compensar o que já tem: aumentar a memória, a atenção, a fluência verbal e melhorar sua sinapse. Mas e sobre os efeitos colaterais? Desde os primeiros testes cínicos, o Piracetam mostrou-se excepcionalmente bem tolerado. Mas mesmo que raramente, efeitos colaterais, como nervosismo e aumento de peso, já foram identificados. De qualquer forma, usar substâncias para estimular a criatividade, a memória ou a vigília não é nada que já não tenhamos visto antes. Acontece que, nos últimos anos, temos sintetizado moléculas que jamais existiam na natureza. E elas, aparentemente, tem efeitos incríveis em pessoas saudáveis. Mas para compreender tudo isto de uma forma bem objetiva, vamos voltar um pouco no tempo antes de falar de tais avanções e novidades na área dos nootrópicos.


O café, por exemplo, foi o combustível da Revolução Industrial, que se deu a partir do século XVIII. Entre seus vários compostos, a cafeína foi um dos que ajudou a manter os trabalhadores despertos e atentos em jornadas de trabalho que muitas vezes ultrapassavam as 16 horas diárias. E talvez você nunca tenha ouvido falar de Paul Erdös. É um gênio da Matemática, que publicou mais de 1475 artigos durante sua vida. É um número que ultrapassa o de qualquer matemático da história. Mas qual era o seu segredo? O que ele utilizava? A resposta é bem simples: Anfetamina


A molécula garantia ao senhor Erdös a capacidade de trabalhar por até 20 horas diárias. Conta-se, inclusive, numa biografia do matemático, que um amigo dele, preocupado com o abuso da substância, lhe fez uma aposta inusitada. Ofereceu certa quantia em dinheiro caso o gênio conseguisse passar um mês sem a droga . E acabou que Erdös ganhou o dinheiro. Não satisfeito, o matemático falou ao amigo que o havia desafiado: "Obrigado! Você me mostrou que eu não sou um viciado. Mas veja, eu não conseguir terminar trabalho algum! Sem a droga, eu acordava pela manhã e ficava apenas olhando para um pedaço de papel em branco. Não tinha ideia alguma, igual uma pessoa qualquer. Você atrasou a Matemática em um mês". Para a felicidade da Matemática, Erdös voltou a consumir a anfetamina. Assim como, até hoje, muitas pessoas o fazem. O Adderal é uma substância legal, obtida com prescrição, nas farmácias americanas. E um dos seus derivados, a Ritalina é vendida em muitas farmácias brasileiras. Inclusive para crianças.

O criador do Piracetam estava correto quando comentou sobre nossa "impaciência" diante do curso natural da vida. O homem do século XXI busca acelerar e moldar a seu gosto, a evolução. É para se adequar ao ritmo cada vez mais competitivo dos grandes centros urbanos. E a maior commoditie que se pode ter numa sociedade dessas é a inteligência. A "pressão seletiva" de hoje é muito diferente da que existia nas savanas africanas de milhares de anos atrás. James Watson, que foi um dos descobridores da estrutura do DNA, certa vez disse: "Nós vamos controlar a vida? Eu creio que sim. Nós sabemos o quanto que somos imperfeitos. Por que não nos moldar e nos tornar mais aptos à sobrevivência? É isso o que faremos: iremos nos tornar melhores". 

Ironicamente, é usando o desenvolvido córtex-cerebral, que foi um presente da evolução, que a espécie humana busca, na arte de fazer moléculas, uma chance de melhorar a si mesma. Fármacos que surgiram para tratar de doenças neurológicas acabam sendo usados por estudantes, militares e mesmo por cientistas, médicos e cirurgiões, com o objetivo de aumentar a concentração, a vigília, a memória e a produtividade. Talvez o mais fascinante exemplo disso seja o Modafinil. Mas brincar de neurohacking pode ser perigoso. Ainda mais quando engana-se o cérebro, alterando o nível de uma coleção enorme de neurotransmissores. É isso que o modafinil faz. Vamos conhecê-lo quando conseguimos permanecer acordados por "três dias e três noites":

Conversão de adrafinil em modafinil, no fígado

Nos anos 50, um químico francês, chamado Michel Jouvet, começou a se dedicar ao estudo do sono na Universidade de Lyon. Sua pesquisa, usando técnicas então novas, como o eletroencefalograma, levou à descoberta das fases do sono.  Foi nos anos 70 que Jouvet descobriu a cura para uma doença rara chamada narcolepsia. Este é um distúrbio raro que causa vários ataques de sono e uma sonolência excessiva durante o dia. A pessoa nunca se sente "descansada". A solução mágica de Jouvet foi uma droga chamada Adrafinil. O Adrafinil é metabolizado no corpo em Modafinil, mas tal metabolização acaba sendo tóxica. O problema foi resolvido quando, finalmente, o Modafinil foi sintetizado isoladamente, nos anos 80, e chegou às prateleiras francesas em 1994. Depois, se espalhou para vários países, há poucos anos, foi aprovado no Brasil, como uma substância controlada, de receita amarela.

Era uma droga misteriosa, mas promissora. Mas ninguém sabia muito bem como ela funcionava. Mas funcionava e, aparentemente, sem efeitos colaterais sérios. Também não parecia causar a euforia da anfetamina e dos seus derivados como a Ritalina. Pelo contrário: não havia agitação alguma, era uma sensação de vigília acompanhada de tranquilidade e (muita!) concentração. Os sofredores de narcolepsia haviam encontrado sua cura. Podiam ficar acordados durante todo o dia. Mas como George Bernard dizia, "a ciência nunca resolve um problema sem criar outros dez". É que a droga começou a atrair outros públicos.


Bem antes do lançamento, soldados franceses já haviam usado o modafinil na Guerra do Golfo, em 1991. Não era uma aposta. Eles estavam confiando no marketing do próprio Jouvet, que havia garantido: "O modafinil consegue manter um Exército de pé e lutando por três dias e três noites sem nenhum efeito colateral sério". Ele tinha sua razão. Mais tarde, um experimento conduzido no Instituto de Pesquisa do Exército Walter Reed (Maryland) mostrou que era possível se manter "funcional" até mesmo 85 horas depois do uso do modafinil. Algo extremamente vantajoso, uma vez que as operações militares podem durar por vários dias. Um soldado que passe mais de três dias acordado, sem perdas no desempenho mental, pode ser fundamental numa guerra.

Mais recentemente, o exército britânico testou o modafinil na Guerra do Iraque. E o Canadá permite que, em missões na ISS, seus astronautas usem o modafinil para "otimizar a performance em momentos de fadiga". O que é ainda mais fantástico é este estudo de 2012. Partindo do princípio de que "médicos cansados e sem dormir oferecem grandes riscos a si mesmo e aos seus pacientes", eles dividiram residentes em dois grupos. Um tomava placebo e outro tomava modafinil. Os que receberam modafinil tiveram melhor memória de curto prazo, conseguiram tomar decisões menos impulsivas e apresentaram mais atenção.  O mais curioso: o modafinil, segundo evidências anedóticas, não cria um "déficit de sono", o que significa que, após tantos dias acordados, os soldados não sentiam necessidade de repor as horas de sono perdidas. Além disso, as mesmas evidências anedóticas sugerem que a vigília não é algo forçado. Mesmo tomando modafinil, seus usuários dizem conseguir dormir, caso assim desejam. Bastaria pregar os olhos e o sono viria, de forma bem rápida, até. Por essas e por outras, os mistérios do modafinil ainda não foram completamente elucidados. Pois ele apenas acentua e muito o que você já é, o que de certa forma, causa uma grande polêmica. 


E o modafinil não viajou apenas pela corrente sanguínea daqueles que estavam nas Forças Armadas ou que sofriam de narcolepsia. Logo, atraiu muitos civis sem qualquer distúrbio de sono. Mesmo aqueles que não se interessavam por 85 horas de vigília. É que o modafinil, segundo seus usuários, garante um foco extraordinário, um estado de "superconcentração", em que é possível trabalhar ou estudar, sem cansaço, por várias horas seguidas. Em terras apaixonadas pela produtividade, resultados e sair em primeiro lugar em tudo; o modafinil é comercializado a preço de ouro. Não há estatísticas oficiais, mas importantes jornais britânicos chegam a falar que 25% dos universitários das principais instituições de ensino já experimentaram o modafinil. Foi até mesmo descoberto uma espécie de mercado negro ao redor de grandes universidade, como Oxford e Cambridge, onde a droga era vendida.

E não se trata apenas de sensacionalismo ou historinhas que rodam por fóruns virtuais. Os efeitos do modafinil em pessoas saudáveis são cientificamente reconhecidos. Em 2003, pesquisadores da própria Universidade de Cambridge já haviam feito um estudo do modafinil em indivíduos sem problemas de saúde. Foram 60 voluntários, homens, divididos em dois grupos. Um grupo recebia modafinil em doses variáveis, enquanto o outro recebia placebo. Em seguida, eles faziam vários testes que mediam seus níveis de atenção e memória. Aqueles que receberam o modafinil se sentiram mais em alerta e concentrados. Segundo o estudo, houve melhoras significativas em vários testes cognitivos, sem observação de efeitos colaterais. Há outros testes relatando melhoras na memória, há controvérsias nos tipos de memória que são melhoradas e no aprendizado, logicamente.


O modafinil provavelmente não aumenta vários pontos no QI apenas por ser ingerido. No entanto, ele consegue colocar seu usuário num extraordinário estado de concentração e, de quebra, lhe isenta do sono e portanto, da necessidade de dormir ou descansar. Os relatos daqueles que usaram ou usam o modafinil surpreendem. Parece que não é bem um aumento de inteligência, isto é, o usuário não se transforma em um Einstein só porque tomou alguns comprimidos brancos. Trata-se de um foco sem igual, impossível de ser experimentado por aqueles cérebros que nunca foram lubrificados pelo poder da molécula. O modafinil parece ter seu principal efeito no nível de concentração e interesse. Desse modo, qualquer atividade, por mais entediante que pareça, se torna extremamente prazerosa, como afirma esse estudo de 2013 também de Cambridge.  E é esse foco que permite a retenção de informações em uma velocidade recorde.

Por exemplo, o jornalista britânico Johann Hari relatou para o Huffington Post: "Eu me sentei e tomei um comprimido de 200mg junto com um copo d'água. E então eu comecei a ouvir música e a limpar todo o apartamento. Finalmente, quando eu me sentei eu peguei um livro de física quântica que eu estava querendo ler há muito tempo. Por muito tempo, aquele livro estava me chamando para a leitura, como num desafio. E eu sempre havia protelado. Não dessa vez. Cinco horas depois, eu percebi que havia chegado à última página. Olhei para cima. Já estava ficando escuro. E eu estava com fome. Eu nem havia prestado atenção em nada, apenas nas palavras que eu lia. Eu não havia parado por um segundo sequer. (...) Meu temperamento não estava nem um pouco diferente, eu não estava "alto". Meu coração não estava batendo mais rápido. Eu só estava concentrado – uma concentração profunda e fácil (...)", relata.

      A escritora MJ Hayland começou a usar o modafinil para lidar com uma grave doença, a esclerose múltipla. E a droga foi um divisor de águas para ela. "Junto de um copo de leite, engoli um comprimido de 100mg. Um pouco mais tarde, eu fui à uma cafeteria e fiquei escrevendo lá até o horário de fim de expediente. Eu só fazia algumas pequenas pausas para massagear e descansar minha mão dolorida. E, depois disso, eu fui para casa, limpei o banheiro, li até às 2 horas da manhã. Meu cérebro estava vivo novamente. (...) Após mais de dois anos sendo fadigada pela esclerose múltipla, eu estava finalmente desperta (...). Tenho tomado 400mg diariamente (sem efeitos colaterais) e me sinto até duas vezes mais produtiva e consideravelmente feliz". O uso do modafinil já é considerado para pacientes com esclerose múltipla, na tentativa de atenuar a fadiga causada pela doença.


O modafinil aumenta a concentração de dopamina nas sinapses. E aí está tanto sua mágica quanto seu perigo: a dopamina está associada à motivação e seu aumento deixa atividades antes tediosas mais divertidas. No entanto, seu excesso em certas regiões do cérebro está ligado ao vício. Acontece que, cada vez mais, pesquisas sugerem que o modafinil tem sim, potencial para abuso. Para saber o porquê, é preciso conhecer os mais recentes estudos sobre a droga. É interessante que, até hoje, não haja consenso sobre o mecanismo de ação do modafinil. Os cientistas apenas têm pistas, mas, em geral, o modafinil permanece como uma molécula única e misteriosa.

A professora Barbara Sahakian (de novo, da Universidade de Cambridge - ela, inclusive, esteve à frente daquele estudo feito por lá em 2003) explica: "Cremos que o modafinil tenha múltiplos mecanismos de ação. Isso é porque ele altera o nível de diversos neurotransmissores no cérebro. Eu suspeito que é por causa dessas ações múltiplas que várias funções cognitivas melhoram - cada uma por um motivo diferente". Na verdade, em alguns casos, ocorre uma sinergia: uma mudança potencializa o outro processo.

Os neurotransmissores são os responsáveis pela condução dos impulsos nervosos e cada um deles tem um efeito distinto em nosso comportamento. O doutor Peter Morgan da Universidade de Yale acredita que o modafinil altera três deles, em especial: "O modafinil definitivamente afeta o sistema de dopamina. A dopamina faz com que você se sinta mais alerta e também mais interessado nas coisas", ele diz. "Também afeta a norepinefrina, o que também contribui para o sentimento de alerta e para um melhor foco".


O terceiro neurotransmissor afetado, segundo ele, é o glutamato. Este neurotransmissor está muito ligado ao aprendizado e à retenção de informações. Isso explica a capacidade do modafinil em turbinar a memória de curto prazo. Este estudo, por exemplo, notou aumento na produção de glutamato simultânea a uma diminuição na produção de GABA. O GABA é um neurotransmissor que causa sonolência. Ao mesmo tempo, o modafinil parece aumentar a liberação de histaminahistamina, além de ser importante no sistema imunológicoregula a vigília e o sono, em ratos, houve aumento de 150% no hipotálamo. Se você já tomou Dramin, um anti-histamínico de primeira geração, sabe os efeitos da diminuição da histamina: sono. A histamina é um neurotransmissor que controla a resposta imune e também tem efeitos na vigília. Toda essa algazarra que ocorre no seu cérebro é responsável direto pelo efeito do modafinil.

De modo mais simples: o modafinil altera toda sua química cerebral. O problema é que, por ser uma droga relativamente nova, ninguém realmente sabe quais são seus efeitos a longo prazo. Ainda mais quando ele é consumido por jovens. O fato de ser um remédio e, portanto, utilizado por alguns milhares de pessoas não quer dizer muita coisa. No fim do século XIX, a cocaína podia ser comprada livremente em farmácias. E, falando em cocaína, o modafinil pode, sim, ser viciante.

É justamente a liberação de dopamina que causa essa preocupação. Por muito tempo, se pensou que o modafinil era totalmente diferente do metilfenidato e das anfetaminas. Não é verdade, apesar de não causar a agitação dessas. O modafinil pode ter múltiplas ações nos neurotransmissores, mas uma delas é aumentar o nível de dopamina nas sinapses. Assim como a Ritalina, ele bloqueia as proteínas que fazem a reabsorção de dopamina para o neurônio pré-sináptico. Desse modo, há mais dopamina livre banhando o neurônio pós-sináptico. Um estudo recente, feito no Brookhaven National Laboratory, comprovou esse aumento de dopamina em humanos, principalmente em áreas do cérebro envolvidas em dependência e abusos de substâncias. Os pesquisadores alegam que "o risco de vício exige cautela na prescrição da droga". Isso para não falar dos riscos da privação de sono. O modafinil pode enganar o cérebro, mas os cientistas acreditam que os efeitos destrutivos da vígilia prolongada ainda estarão lá. "Isso afeta o ritmo circadiano, porque quando eles (os usuários indevidos) deviam estar indo para a cama, ainda estão com a droga no corpo, exercendo seus efeitos. E isso é contraproducente, pois consolidamos nossas memórias no sono", diz Sahakian.

É possível que aqueles que usam o modafinil num desafio à evolução estejam, na verdade, ficando tão inteligentes quanto uma porta. Ou não. Talvez chegue o dia em que será possível arquitetar nossa massa cinzenta. Mas aí, entramos em vários debates éticos. Por enquanto, a única certeza é que a busca por "drogas da inteligência" se tornará cada vez mais comum.

Recomendamos os seguintes tópicos:

Experimente o NZT 100 solicitando 01, 02 ou 03 cápsulas
Veja como enfrentar esta Crise sem precedentes no Brasil
Aprenda a Ganhar dinheiro pela Internet
Acessando a I2P da Deep Web de uma forma descomplicada
A diferença entre tomar e não tomar o NZT
Como funciona e para que serve o Stavigile - Modafinil